Quantas mulheres você já amou?

Confesso que não gosto muito de ninguém logo de cara

Natalia Assarito
5 min readMar 9

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Tenho plena consciência da personalidade difícil que carrego. Talvez seja trauma de infância, de tanto bullying sofrido, mas tendo a olhar o mundo com desconfiança e isso se multiplica de formas relevantes quando se trata de mulheres.

Se ela é legal, é legal demais e legal demais é chata. Se é antipática, é chata. Se é chata, é chata. Todas as minhas amigas foram amor à segunda vista.

Ponto relevante: Freud em algum momento disse algo como “o que te incomoda no outro é reflexo do que incomoda em você mesmo” – sim, essa é uma interpretação de boteco do que Freud disse (ME DESCULPEM PSICÓLOGOS, eu só li O Mal Estar na Civilização até hoje, o resto foram só comentários das obras).

Muito provavelmente é por isso que eu odeio mulheres muito seguras e que falam sem medo de si mesmas. De acordo com minha terapeuta, eu vivo nos extremos entre a impotência e a onipotência. Exemplo: ao mesmo tempo em que alguns dias surjo dizendo que estou no meu melhor momento de escrita, me sinto totalmente incapaz de fazer isso virar qualquer coisa.

Para além das minhas neuroses, é óbvio que a sociedade machista em que vivemos acentua esse meu traço problemático de personalidade. Não sei como está sendo esse debate com as novas gerações, mas, na minha, as meninas existiam para competir entre si. Eu vivia em competições mentais com as outras garotas da escola.

Eu odiava aquelas que eram mais inteligentes do que eu (isso me pegava em um lugar muito importante porque na minha concepção, meu único traço positivo era ser inteligente). Odiava as mais rápidas na educação física (eu era MUITO ruim na educação física). E, principalmente, odiava aquelas que mais chamavam atenção dos meninos da sala.

Hoje em dia a competição diminuiu e foi substituída por mau humor. Extrapola a questão do feminino. Eu não gosto de ninguém logo de cara quase que igualmente. Homem ou mulher.

Depois de adulta, eu nunca gostei de nenhum homem com que me relacionei no primeiro encontro. Parece piada, mas eu preciso me sentir envolvida com a pessoa antes de encontrá-la pessoalmente pra valer a pena e eu me sentir feliz (pra toda regra existe exceção, claro).

Com a minha melhor amiga foi assim também. Nos conhecemos no meu primeiro emprego, em um happy hour ela chegou e literalmente me disse “eu gosto de você e quero ser sua amiga. Vejo você passando e me traz a sensação de que você é uma mulher forte. Quero andar com você”. Achei engraçado, que pessoa quer ser amiga de quem nem conhece? Ser assim deve ser bom e leve – e, mais irônico ainda, era pensar que eu passava a imagem de uma mulher forte quando claramente eu vim quebrada de fábrica. Atualmente eu não fico bem se não falo com ela todo dia.

As pessoas que eu mais amei na minha vida são mulheres (sim, eu sou heterossexual). Minha mãe, minhas avós, minhas tias. Minhas amigas que são as irmãs que eu não tenho. Quem sempre me levantou quando eu caí foi uma mulher.

Eu preciso de alguns “encontros”, mas elas tomam espaços que muitas vezes eu nem sabia que existiam. Tenho lembranças inúmeras de mulheres salvando minha vida.

Minha mãe me explicando, aos 4 anos, que eu havia perdido o livro da Cinderella que tinha acabado de comprar e que, infelizmente, às vezes a gente não consegue fazer aquilo que quer muito (eu vim o caminho inteiro falando pros meus pais que chegaria em casa e pintaria o vestido da Cinderella de rosa. Quando abri a sacola, o livro não estava lá).

Minha avó Irene passando mertiolate que ardia muito na ferida imensa na minha perna quando eu brinquei de pular os ferros da lage.

Minha avó sucubum esperando acordada eu chegar da USP à meia-noite pra ter certeza que nenhum “landrón” (ladrão na sua língua) me atacou no caminho – e com um pratão de comida no microondas pra eu não dormir com fome.

Minha tia Glaucia lendo as histórias que eu escrevia quando era criança e me dando o CD da Sandy & Júnior no Natal – ela teve que ouvir muitas e muitas vezes aquelas músicas.

Minha tia Cristina e nossas viagens infinitas pro apartamento no Guarujá, pra Bahia, as caronas que ela me dava voltando da escola e nossas danças na sala de estar até hoje.

E, claro, minhas muitas amigas que insistem que eu valho o esforço. Os incontáveis choros porque mais uma vez o amor da minha vida do momento me largou. Aquelas pra quem eu mando meus textos de madrugada e me dizem pra não desistir. As que clareiam meus pensamentos quando estou tomada pela névoa da depressão.

Eu posso ser dura de conquistar, mas quando gosto, me acabo. Sei que sou uma ótima amiga também. Porque eu faço absolutamente tudo por quem eu amo e estou sempre disponível (não sei se isso é tão bom pra minha saúde mental, mas ok).

Eu quero que aqueles que são importantes pra mim sejam excepcionalmente felizes. E meu transtorno de ansiedade e inseguranças me dizem que eu preciso ser muito boa pra alguém querer ficar, então eu me dedico. Digo, sem culpa, que isso também é um pouco uma prisão. Eu percebi que o combo autoestima baixa e medo do abandono me tornaram alguém que faz de tudo pro outro ficar – mesmo que, pra isso, eu precise passar por cima dos meus sentimentos.

Um amigo uma vez me disse que minha característica mais bonita é a de levantar e empoderar as pessoas. E eu acho que realmente faço isso, principalmente com mulheres.

Eu luto por nós do modo que eu consigo. Minha psicóloga é mulher, minha professora de inglês (que eu amo de paixão) é mulher. A maior parte dos serviços que eu faço são com mulheres. Eu leio muitas autoras mulheres e compro seus livros por gosto, porque sei como o mercado pode ser machista. Estudo muito sobre feminismo, principalmente aquele voltado para mulheres pretas.

Tenho que reconhecer meus privilégios e saber que enquanto mulheres podemos até estar em um barco como o Titanic que cedo ou tarde vai afundar, mas, que não estamos nas mesmas cabines, andares e que certamente não seremos salvas do naufrágio com a mesma prioridade.

Por mais que a minha angústia e o medo de morrer sozinha me digam o contrário, eu nunca cheguei perto de amar um homem da mesma forma que eu amo as mulheres. E, sinceramente, eu espero que continue assim.

Amar mulheres é o que há de mais intenso e bonito na minha vida.

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Natalia Assarito

cientista social. Transformo angústias em texto. Instagram: @nanaleitora